
A afluência massiva e descontrolada de visitantes gera impactos profundos e prejudiciais para as comunidades residentes. É o turismo desregrado. É como um polvo que abraça as cidades.
Há temas que, quando abordados sem cuidado e utilizam palavras menos acauteladas podemos, de imediato, ser conotados como difusores de discursos de ódio. Cai-se no exagero. Não podermos estar contra algo sem que sejamos logo declarados como racistas, xenófobos, entre outros. Ser pelo controle de imigração, ou contra o turismo excessivo, por exemplo, vêm logo alguns com acusações de racismo, xenofobia, e outros impropérios.
Como motivação para este tema, cito Bárbara Reis que escreveu no Público e resume bem o pensamento, talvez da maioria: “Quem defende mais regulação tem uma “agenda política”. Quem mostra preocupação com o esvaziamento dos centros históricos quer destruir a economia. Quem pede mais intervenção das câmaras e dos governos é insensível, irrealista e irresponsável. Quem não tem fé cega no mercado é ignorante. Quem fala do impacto negativo do turismo de massas noutras cidades europeias é manipulador. Quem critica é malicioso.”
Estamos na época de primavera e de verão propícios ao turismo. Os que não são por ele atormentados, exulta tal atividade com o fito nos ganhos sem se importarem com os que se veem atolados por turistas que perturbam e interferem na sua vida quotidiana devido ao descontrole incómodo que lhes causa.
Temos a clara perceção de que o Governo é incapaz de encarar os problemas do turismo e resolvê-los nos limites das possibilidades, da sensatez e do interesse público, isto é, tendo em conta as pessoas. Luís Montenegro diz recorrentemente, quando refere estar a governar para as pessoas.
As “pessoas” encontram-se rodeadas por imigrantes das mais várias origens (mas esta é outra conversa). Turistas que escolhem para as suas viagens Portugal, o país das amplas permissibilidades que, sobretudo os jovens, tudo deterioram à sua volta e prejudicam os residentes onde se alojam.
Há uma tensão social crescente entre as populações e o turismo desregrado. Veja-se o caso de Albufeira no Algarve onde impera a desbunda. Não vale a pena insistir em que o turismo é que nos está a salvar e que resolve o problema do crescimento. É a nossa addiction, a nossa dependência.
Imagino os comentários que irão aparecer, por quem ler este texto, vindos dos grandes impulsionadores do turismo desregrado. Quem não é pelo turismo que anarquicamente invade todo o país, sobretudo na cidade de Lisboa e no Algarve - que parece já não ser nosso - é contra Portugal, é antipatriótico, como escreveu Bárbara Reis. Vender a alma ao turismo é a ordem. Concordo com ela.
Podem alguns dizer que quem critica os excessos causados pelo turismo e não se rende e vende ao turismo quer a ruína do país.
Por isto, porque me oponho ao excesso de turismo, e porque protesto contra o esvaziamento e descaracterização das cidades, neste caso Lisboa e, especificamente, o Algarve, sou um perigoso radical esquerdista e tonto. Pensem o que quiserem. Vivem lá tranquilos nos seus espaços sem o incómodo de tal atividade.
O que vejo em alguns bairros e freguesias por onde transito na cidade de Lisboa deparo-me com turistas que nos anos 80 eram designados por “turistas do pé descalço” ou “turismo do chinelo”.
Alojamentos locais (AL) e habitações cujos proprietários fazem alugueres temporários a turistas (com objetivo lucrativo, o que é lícito), mas que reduzem a oferta destinada à habitação. Os inconvenientes do ruído e até de lixo que tais tipos de turistas transportam para edifícios destinados a habitação são evidentes. Várias medidas tomadas por sucessivos governos e autarcas em grande medida pertencem ao grupo do laissez faire, laissez passer, em relação ao turismo.
Infelizmente somos um país que, sem turismo, sobreviverá a muito custo por culpa dos sucessivos governos que estimularam este subsetor na prática desregulado desleixando outros setores que poderiam contribuir para o crescimento da economia.
O turismo tem sido uma opção de modelo de desenvolvimento, com ganhos evidentes. A opção tem riscos estruturais que os governos assumem politicamente essa opção como a salvação do país. Não sabendo o que fazer, dizem-nos que não há outra solução.
Dada a falta duma visão alargada, transformaram o turismo num pilar central, justificando tal com propagandas bacocas destinadas a quem não se inteira das andanças da economia acenando ao mesmo tempo com a importância para o elevado peso no PIB, no emprego, nas exportações de serviços e na balança de pagamentos. Vendermos Portugal ao estrangeiro.
É recorrente a facilidade com que é sobrevalorizado o turismo. O turismo tem sido crucial para compensar défices estruturais na balança de bens como já referi. Sem turismo, o desequilíbrio externo seria muito mais visível. Somos uma espécie de pedintes de mão estendida ao turismo. Vender Portugal ao turismo é o que dá menos trabalho, menos dor de cabeça é o que está a render.
Mas, como diz a canção interpretada pelo cantor português Luís Trigacheiro da qual faço aqui uma adaptação ao turismo: “…nem tudo do turismo é mau / Nem tudo do turismo é lamento / Sem turismo não há nada”.
O turismo tem sido crucial para compensar défices estruturais na balança comercial com o estrangeiro. Sem turismo, o desequilíbrio externo seria muito mais visível, para além disso oferece emprego rápido e cria muitos postos de trabalho em pouco tempo, absorvendo desemprego jovem e pouco qualificado e recorre-se também à imigração para trabalho sazonal.
Outro fator para o dinamismo local em muitas cidades é a reabilitação urbana. O turismo foi o gatilho para recuperar edifícios, dinamizar centros históricos e atrair investimento que transforma em hotéis e empreendimento ds de luxo que turistas ricos adquirem apreços tais que conduzem ao aumento do preço da habitação.
O problema é que estas vantagens são frequentemente apresentadas como se fossem estratégia de desenvolvimento, quando muitas vezes funcionam mais como atalho conjuntural. Em vez de resolver fragilidades produtivas, o país “aluga-se” ao exterior. A perceção é que as vantagens são inferiores às desvantagens para as pessoas.
A falta de visão estratégica e o facilitismo nas decisões governamentais pode ter consequências graves. Quando o turismo cai, não há amortecedores internos suficientes e regiões inteiras podem ficar sem alternativa económica, empresas que fecham, o desemprego aumenta. Isto é típico de economias dependentes que, geralmente, estão associados à dependência de um único setor de atividade como o do turismo como uma espécie de monocultora e não uma economia diversificada.
Há efeitos colaterais evidentes da lógica “mais turismo a qualquer custo”. A conversão massiva de habitação em alojamento local, a subida de rendas e preços de compra, expulsão de residentes de bairros centrais, transformação de cidades em cenários para consumo, não em lugares para viver. O caso de Barcelona é paradigmático porque enfrenta um dilema crítico de overtourism
Aqui o turismo deixa de ser “setor económico” e passa a ser força de reconfiguração através duma arquitetura social negativa. Quem pode pagar fica, quem não pode é empurrado para a periferia. A economia ganha, mas a sociedade fragmenta-se.
Mesmo não sendo especialista em economia uma simples análise mostra-nos que o turismo é o maior motor da economia portuguesa, gerando cerca de aproximadamente 19,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2025 foram registados 19,7 milhões de hóspedes estrangeiros em relação a 10,87 milhões de habitantes o que representa um aumento de 3,0% e 1,9%, respetivamente, em relação a 2024. (Fonte Turismo de Portugal)
Porto e Lisboa estão entre as dez cidades a nível global com maior densidade turística em relação ao número de habitantes. A capital, por exemplo, ultrapassa a fasquia dos 21 milhões de dormidas anuais na sua área metropolitana Fonte Jornal económico).
Grande parte do turismo português assenta em alojamento, restauração, serviços pessoais, trabalho intensivo, salários baixos, fraca produtividade.
Ou seja, o país especializa-se em serviços intensivos em trabalho barato, em vez de subir o seu valor económico em tecnologia, conhecimento, design, serviços avançados. O resultado é que o turismo faz subir o PIB, mas não faz subir proporcionalmente salários médios, qualificação, inovação.
Quando um setor ganha peso económico e simbólico excessivos os lóbis atuam e tende a ganhar também poder político. A resistência a qualquer regulação, como sejam limitação ao alojamento local, taxas turísticas, regras sobre ruído (regra esta que, por acaso, existe, mas insipiente e de difícil concretização), entre outras.
Surge então o habitual e permanente discurso de chantagem traduzido em: “se regulam, matam o turismo e se matam o turismo, matam a economia” e por aí adiante. Qualquer tentativa de reequilibrar o modelo urbano ou produtivo é acusada de “anti turismo”, o que bloqueia reformas necessárias. Governos como o atual que se dizem reformistas “assobiam para o lado” e nós, as pessoas, para quem Luis Montenegro diz estarem no seu foco, cá estamos para aturar isto. Mas não lhe podemos imputar toda a responsabilidade os anteriores governos de António Costa foram também responsáveis por esta anarquia digna do “terceiro mundo”, conceito já desatualizado que eram as nações neutras e subdesenvolvidas. Somos um país pobre como as Maldivas, Camboja, Gâmbia e Quénia que dependem fortemente do turismo internacional.
O verdadeiro problema não é ter turismo, é não ter mais nada. O turismo em si não é o inimigo e quando se torna o principal apoio ao crescimento e quando é desregrado e excessivo.
Alguns os adeptos mais furiosos que ganham milhares ou dependem do turismo irão dizer, ou melhor, escrever, que não sei do que estou a falar. Têm razão. Como disse anteriormente não sou especialista em economia, mas observo e vejo o que se passa à volta.
Se acham que posso sugerir linhas de saída e ideias de reorientação para além do turismo, não contem com isso. Como disse anteriormente não sou especialista em economia, sou apenas um cidadão comum que observa o que o rodeia.
O que é preciso são governos corajosos e competentes. É para isso que os elegemos. Elegemos os que se dizem reformistas, mas que pioram o que eventualmente já estava mal e apenas se centram nos prejuízos sobre quem trabalha para aumentar o crescimento com o slogan da produtividade e da competitividade. Quando não sabem o que hão de fazer para reformar encontram sempre os suspeitos do costume.
Condenaram Portugal ao turismo desregrado e escolheram depender dele. A questão política central não é se o turismo é bom ou mau, mas que quantidade de turismo é compatível com uma economia diversificada e uma sociedade habitável.