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A retórica do excesso ou a Loucura em Trump

A retórica do excesso ou a Loucura em Trump

O lema de Trump é se “não tens quem te elogie elogia-te a ti mesmo”.

Pergunto a quem resolveu parar aqui por curiosidade do texto conhecerá e terá lido a obra de Erasmo de Roterdão o “Elogio da Loucura” escrita em 1509? Não? Não se preocupe. Terão sido poucos os que já o leram!

O “Elogio da Loucura” é um discurso satírico em que a própria Loucura é personificada e fala na primeira pessoa para mostrar, com ironia, que grande parte da vida humana, da amizade à política, da religião ao amor, depende dela mais do que da razão. A Loucura é, ela própria, uma protagonista personificada.

Para aqueles que ainda não conhecem a obra aqui vai uma breve síntese duma pequena parte que interessa para este artigo. Erasmo, tomando a voz da Loucura, satiriza governantes, académicos, teólogos e autoridades religiosas, denunciando hipocrisia, superstição e corrupção. É crítica à sociedade, à moral, à política e à Igreja da sua época.

O “Elogio da Loucura” serviu-me como elemento para compreensão de fenómenos políticos atuais que desafiam normas tradicionais. A “Loucura”, personagem alegórica, oferece um espelho onde se podemos ver refletidas as políticas, as geopolíticas e as tensões das democracias contemporâneas.

Assim, podemos imaginar a política como uma espécie de teatro. Se Erasmo de Roterdão vivesse hoje já não escreveria o “Elogio da Loucura”. Limitar-se-ia a ler a imprensa e a ligar a televisão. A Loucura na altura em que Erasmo a escreveu era uma alegoria. Hoje teria corpo com microfone e horário nobre nas televisões.

Talvez Donald Trump seja uma das personificações da Loucura.  O que no provoca um sorriso de troça. A própria personagem Loucura teria inveja. Afinal, ela sempre quis multidões, aplausos, exagero, e uma plateia disposta a confundir convicção com verdade. As verdades são as dele. Não há outras. São as verdades alternativa. Pela análise das suas atitudes já avaliadas por especialistas, Trump domina essa arte com a naturalidade de quem respira.

A personagem Loucura é assume-se como uma criatura exuberante, que se apresenta ao mundo com a confiança de quem nunca duvida de si. Esta figura alegórica teria hoje concorrência: líderes que falam com a certeza de profetas e a leveza de comediantes, que misturam indignação com espetáculo. Trump surge como exemplo recorrente dessa retórica performativa: frases curtas, certezas longas, e uma relação com a realidade tão flexível quanto a banca de um vendedor de bugigangas ou, melhor, como vendedor de brinquedos perigosos.

Trump domina esse registo com a precisão de um antigo fanfarão da corte: provoca, exagera, repete e, nesse processo, obriga todos os que o rodeiam a dançar ao ritmo que ele impõe. Segundo alguns dicionários fanfarrão é uma pessoa arrogante, gabarola ou valentona, que ostenta coragem, superioridade ou qualidades que, na realidade, não possui. É alguém que se vangloria, mente sobre as suas capacidades e costuma desviar-se perante o perigo ou situações reais.

Erasmo escreveu que o riso desarma mais do que a espada. A Loucura torna-se perigosa porque, ao ridicularizar políticos, cientistas (alguns) e poderosos, expõe a fragilidade das instituições. Hoje, vemos repercussão dessa estratégia em discursos que desafiam normas, zombam de adversários e transformam debates em arenas de entretenimento. Não preciso de mencionar nomes para evitar suscetibilidades.

A personagem Loucura, dizia disparates que, afinal, eram verdades inconvenientes. Os fenómenos políticos recentes funcionam da mesma forma. A retórica perturbadora, por mais caótica que pareça, revela tensões profundas como desigualdades, ressentimentos, medos, frustrações. Ela é uma personagem que se vangloria de ser indispensável ao mundo. Esta figura funciona como metáfora das emoções que atravessam as sociedades em momentos de crise.

A figura de Trump assim como outros, próximo de nós, aqui em Portugal, e também na Europa, não são apenas atores barulhentos num palco, são também um espelho onde a sociedade americana e a nossa se reveem e, de momento, não sabemos se ainda gostam do que veem.

Talvez a política contemporânea precise mesmo desta energia turbulenta, desta mistura de espetáculo e convicção, para revelar o que estava escondido. Neste sentido Trump torna-se não um herói nem um vilão, mas um sintoma de uma potencial doença da democracia. Afinal, se bem refletirmos,  é mais um capítulo do que Erasmo começou e que o mundo insiste em continuar a escrever.

Mas continuemos. A figura alegórica da Loucura é mostrada como exuberante, autoconfiante, sedutora e capaz de expor contradições sociais que serve para compreender a ascensão de líderes que desafiam normas institucionais e discursivas. Donald Trump é, frequentemente, colocado nesse debate, não como objeto de sátira direta, mas como exemplo de como a retórica política contemporânea pode ser lida numa perspetiva da Loucura.

A comunicação política de Trump é frequentemente descrita como performativa, baseada na repetição, na certeza e na construção de uma identidade forte. É uma espécie de representação da forma moderna da autoridade louca, não a autoridade racional, mas a autoridade emocional que a loucura lhe provoca.

A ascensão de Trump, e de outras forças aqui mesmo na Europa, vieram expor tensões latentes não só na sociedade americana: económicas, culturais, identitárias. Criou uma retórica polarizadora, “louca” que, afinal, é também reveladora por obrigar ao confronto de desigualdades, ressentimentos e falhas institucionais.

A política partidária contemporânea para alcançar votos parece depender cada vez mais de emoções fortes, narrativas simples e figuras que dizem romper com o status quo. É nisto que se fundamenta o crescimento das extremas-direitas, dos demagogos e dos populistas. Trump é frequentemente analisado como símbolo disso mesmo sendo considerado como um agente que, para críticos e apoiantes, representa uma mudança profunda na forma como o poder é exercido e percebido. Isto é o caminho para o poder totalitário.

A “Loucura de Erasmo” triunfa apenas porque encena a sua própria autoridade. Do mesmo modo Trump não convence pela razão, mas pelo conflito, pela provocação, pela imposição, pela força e pela confiança absoluta em si mesmo.