
Um título que poderia ser dado a este artigo seria: «É possível que um mais alto representante duma nação possa ser mentiroso e inconsistente? Sim é, possível».
Quem está atento aos noticiários das televisões e a par do que se escreve na imprensa verificará que as intervenções do Presidente dos EUA Donald Trump são a maior parte das vezes contraditórias, dependentes do acaso, de circunstâncias e muitas vezes imprevisíveis e contingenciais. Isto é, o que é dito hoje pode já não o será amanhã.
Apoiando Israel em Gaza e agora atacando o Irão sem objetivos definidos surgiram de Trump novas mentiras, confusões e indecisões que passaram a segundo plano, mas que é oportuno recordar. Dividi o artigo sobre mentiras e imprecisões de Trump em duas partes, uma mais generalista e outra dedicada às guerras de Gaza e do Irão. Sobre estas últimas, as mais recentes, ficarão para o próximo texto.
Dispus-me a pesquisar a partir de fontes credenciadas algumas das várias contradições, desinformações e até mentiras, atitudes de Trump que muitos comentadores justificam as pela sua capacidade negocial e transacional. Mas as nações, nem a política internacional, arcadas atualmente pela multipolaridade e tensões geopolíticas, não se gerem com transações aleatórias e conforme desígnios pessoais.
As contradições e afirmações falsas atribuídas a Donlad Trump são baseadas em verificações independentes e têm como base a imprensa a televisão e órgãos de verificação de factos. Não são opiniões próprias, são apenas relatos que fontes jornalísticas e organizações de verificação de facto documentaram. Recorri a diversas fontes como CNN, Associated Press, SIC entre outras.
As afirmações e declarações falsas, exageradas ou deturpadas por Donald Trump são várias: números exagerados, sobretudo sobre economia, imigração e conflitos internacionais; afirmações incompatíveis com dados oficiais como reinterpretações seletivas de estatísticas para reforçar narrativas políticas e contradições entre declarações feitas em momentos diferentes. Economia: discrepâncias entre discurso e dados oficiais
Comecemos pela economia. “O país que herdei tinha uma economia estagnada” disse Trump, mas, a economia dos EUA crescia a um ritmo sólido antes do início do seu mandato em que o PIB cresceu cerca de 2,8% em 2024 e 2,9% em 2023, valores superiores ao início do novo mandato presidencial. A narrativa de “estagnação” não é suportada pelos dados. “Não tive inflação, praticamente não tive inflação”. A inflação acumulada durante o mandato anterior de Trump foi de cerca de 7,8%, o que contraria a afirmação de inflação quase nula.
Quanto à imigração as afirmações absolutas de Trump não batem com a realidade operacional. A sua afirmação foi que “Nos últimos nove meses, zero imigrantes ilegais entraram nos Estados Unidos”. A frase é tecnicamente verdadeira apenas se interpretada de forma muito restrita porque refere-se a imigrantes detidos e libertados dentro do país, mas milhares de travessias ilegais foram registadas no mesmo período, mesmo que em números mais baixos do que noutras administrações.
Na política externa inflação de números inflacionados sobre conflitos ao afirmar que “Nos meus primeiros 10 meses terminei com oito guerras”. A Associated Press classificou esta afirmação como altamente inflacionada, porque não há registo de oito conflitos encerrados nesse período.
Nos debates presidenciais é elevado o número de afirmações falsas onde foram identificadas muitas afirmações falsas num único debate dos quais faziam parte aborto, imigração, economia e políticas tarifárias. Alguns exemplos que Trump afirmou: as suas políticas tarifárias não aumentariam custos para famílias de classe média, mas estudos citados pela CNN indicam aumentos anuais estimados entre 1.200 e 3.600 euros para famílias médias, dependendo do cenário tarifário.
Nos discursos internacionais como foi no Fórum Económico de Davos, realizados entre 16 e 19 de janeiro de 2026 verificaram-se várias declarações com imprecisões e os exageros no discurso de Donald Trump em Davos que podem ser consultados na verificação de factos publicada pela BBC de que a seguir faço uma síntese, mas que pode ver aqui.
Num discurso a líderes mundiais no Fórum Económico Mundial em Davos, Suíça, o presidente Trump fez uma série de alegações que foram contestadas. Trump mencionou o seu desejo de obter a Groenlândia da Dinamarca a que ele chamou “small ask”, sobre a contribuição dos Estados Unidos para a NATO e a energia eólica na China. O seu discurso que durou mais de uma hora continha várias afirmações falsas que deram lugar a perguntas que foram posteriormente respondidas.
A primeira falsidade foi que os EUA “devolveram a Groenlândia” após a Segunda Guerra Mundial o que é falso. Durantes várias semanas Trump falou sobre o seu desejo de adquirir a Groenlândia, território que em grande parte é autónomo e pertença da Dinamarca chegando a afirmar que é fundamental para a segurança nacional dos EUA. Acrescentou em Davos que após a Segunda Guerra Mundial “devolvemos a Groenlândia à Dinamarca”, acrescentando: “Quão estúpidos fomos por fazer isso?” O que nos diz a história é que em 1933, um tribunal internacional, predecessor do Tribunal Internacional de Justiça (CIJ), decidiu que a Groenlândia pertencia à Dinamarca. Em 1941 depois da rendição da Dinamarca à Alemanha no ano anterior, os representantes dos EUA e da Dinamarca assinaram um acordo que permitia aos EUA defenderem a Groenlândia para impedir que os nazis a ocupasse, o que levou à construção de bases americanas na ilha, bem como ao envio de tropas americanas. No entanto, o acordo não envolvia uma transferência de soberania, o que significava que a Groenlândia nunca se tornou território dos EUA.
O presidente dos EUA criticou a NATO quando afirmou que “os Estados Unidos estavam a pagar praticamente 100% da NATO”. Sobre o nível das contribuições dos países que são membros da aliança militar disse que “Eles não pagaram os 2% e agora estão a pagar 5%”. Nenhuma dessas afirmações está correta. Assim, nos últimos anos, os gastos dos EUA em defesa representaram cerca de 70% do total gasto pelos países da NATO. Em 2024, esse número caiu para 65% e, a estimativa em 2025 terá sido 62%, já que todos os membros da NATO deveriam ter gasto pelo menos 2% do PIB em defesa pela primeira vez.
Sobre o nível das contribuições dos países que são membros da aliança militar afirmou que “Eles não pagaram os 2% e agora estão pagando os 5%”. O facto é que o presidente dos EUA conseguiu que esses países se comprometessem a gastar mais em defesa, mas os 5% de que Trump estava a falar são um objetivo de longo prazo, a ser alcançado até 2035. Nenhuma daquelas afirmações está correta.
Atualmente, nenhum membro da NATO gasta tanto, já que até para a Polónia, o país que gasta a maior parte do seu PIB em defesa, estima-se que tenha gasto pouco abaixo de 4,5% em 2025.
Outra afirmação polémica e deturpada foi a de que os EUA não receberam nada de retorno da NATO quando Trump afirmou que os EUA “nunca receberam nada” da NATO e que “nunca pedimos nada”. São afirmações falsas. O site da NATO afirma que “a defesa coletiva é o princípio mais fundamental da NATO” e o Artigo 5 do tratado fundador afirma que “um ataque armado contra um membro da NATO será considerado um ataque contra todos eles”. Os EUA são o único membro da aliança que invocaram o Artigo 5 o que fizeram após os ataques de 11 de setembro de 2001 às Torres Gémeas em Nova Yorque. Por outro, as nações que fazem parte da NATO contribuíram com tropas e equipamentos militares para a guerra liderada pelos EUA no Afeganistão que se seguiu.
Entre os países que contribuíram estava a Dinamarca, que sofreu uma das maiores taxas de baixas ‘per capita’ entre os aliados dos EUA. Eles foram amplamente destacados para áreas fortemente contestadas ao lado das forças britânicas na província de Helmand.
Trump criticou a energia eólica que, segundo ele, fazia parte de um “novo golpe verde” e atacou políticas de energia renovável, chamando-as do “maior engano da história” e defendeu o uso de petróleo e de gás. Destacou ainda a China, alegando que, embora ela tenha fabricado muitos geradores para energia eólicas, ele não “conseguiu encontrar nenhum parque eólico na China.”
Estas são mentiras descaradas porque a China possui um dos maiores parques eólicos do mundo, em Gansu, província da República Popular da China que pode ser visto do espaço.
Parque eólico em Gansu, China.
Imagem The Guardian
A China gera mais energia eólica do que qualquer outro país, segundo o Our World in Data. As suas estatísticas mostram que, em 2024, a China gerou 997 terawatt-hora a partir do vento, mais do que o dobro do que os EUA que ficaram em segundo lugar.
O presidente Trump também destacou o Reino Unido, criticando suas políticas energéticas e referiu-se ao petróleo do Mar do Norte, dizendo incorretamente: “Eles, o Reino Unido, tornam impossível para as companhias petrolíferas, ficam com 92% da receita.”
Sgundo a verificação de factos da BBC as empresas de petróleo e gás que operam no Mar do Norte pagam um imposto sobre as sociedades de 30% sobre seus lucros e uma quota suplementar de 10% além disso. Isso é maior do que os 25% de imposto sobre sociedades pagos por outras grandes empresas. Em novembro de 2024, o governo aumentou o imposto sobre lucros extraordinários sobre empresas de petróleo e gás de 35% para 38%. Isso eleva o imposto total sobre o petróleo do Mar do Norte para 78%, que é pago com lucros, não com receita.
Ainda em 2025 as diatribes de Trump foram também evidentes quando afirmou que “encerrou 8 guerras em apenas 8 meses" em uma postagem nas redes sociais com o título "o presidente da paz” e a sua mais recente adição à lista de guerras “encerradas” é o conflito de dois anos entre Israel e Hamas. Os outros sete ficaram entre Israel e Irão, Paquistão e Índia, Ruanda e República Democrática do Congo, Tailândia e Camboja, Arménia e Azerbaijão, Egipto e Etiópia, e Sérvia e Kosovo. O certo é que vários desses conflitos duraram apenas alguns dias, embora tenham sido resultado de tensões antigas, e um deles não teve combate para terminar.